
gente tem um nível de exigência absurdo em relação à vida, que queremos
que absolutamente tudo dê certo, e que, às vezes, por aborrecimentos
mínimos, somos capazes de passar um dia inteiro de cara amarrada.
E aí ele deu um exemplo trivial, que acontece todo dia na vida da gente...
É quando um vizinho estaciona o carro muito encostado ao seu na
garagem (ou pode ser na vaga do estacionamento do shopping). Em vez de
simplesmente entrar pela outra porta, sair com o carro e tratar da sua
vida, você bufa, pragueja, esperneia e estraga o que resta do seu dia.
Eu acho que esta história de dois carros alinhados, impedindo a
abertura da porta do motorista, é um bom exemplo do que torna a vida de
algumas pessoas melhor, e de outras, pior.
Tem gente que tem a vida muito parecida com a de seus amigos,
mas não entende por que eles parecem ser tão mais felizes.
Será que nada dá errado pra eles? Dá aos montes. Só que, para
eles, entrar pela porta do lado, uma vez ou outra, não faz a menor
diferença.
O que não falta neste mundo é gente que se acha o último
biscoito do pacote. Que "audácia" contrariá-los! São aqueles que nunca
ouviram falar em saídas de emergência: fincam o pé, compram briga
e não deixam barato.
Alguém aí falou em complexo de perseguição? Justamente.
O mundo versus eles.
Eu entro muito pela outra porta, e às vezes saio por ela também.
É incômodo, tem um freio de mão no meio do caminho, mas é um problema
solúvel. E como esse, a maioria dos nossos problemões podem ser
resolvidos assim, rapidinho. Basta um telefonema, um e-mail, um pedido
de desculpas, um deixar barato.
Eu ando deixando de graça... Pra ser sincero, vinte e quatro
horas têm sido pouco prá tudo o que eu tenho que fazer, então não vou
perder ainda mais tempo ficando mal-humorado.
Se eu procurar, vou encontrar dezenas de situações irritantes e
gente idem; pilhas de pessoas que vão atrasar meu dia. Então eu uso a
"porta do lado" e vou tratar do que é importante de fato.
Eis a chave do mistério, a fórmula da felicidade, o elixir do
bom humor, a razão por que parece que tão pouca coisa na vida dos outros
dá errado."
Quando os desacertos da vida ameaçarem o seu bom humor, não
estrague o seu dia... Use a porta do lado e mantenha a sua harmonia.
Lembre-se, o humor é contagiante - para o bem e para o mal - portanto,
sorria, e contagie todos ao seu redor com a sua alegria.
A "Porta do lado" pode ser uma boa entrada ou uma boa saída... Experimente!
(Dráuzio Varella)

(Clarissa Corrêa)
O apertar da buzina evidenciava a chegada. As janelas lotadas permaneciam atentas ao rápido movimento. Eram várias as pessoas que ali estavam. Todas apinhadas para aquele desfile mordaz. As motocicletas passavam cuspindo no chão, enquanto eu ficava a observar as tatuagens, os capacetes e os cabelos longos jogados para o vento. Um grito que ocupava a sala me mandava entrar. Eu tinha que sair de lá, fechar a janela. E deixar para trás o desejo por tudo aquilo que nunca seria conquistado. Mas as pernas não obedeciam.
Era sempre ao anoitecer. Antes da missa. Eu os esperava chegar com o vestido desajustado ao corpo. Sem curvas, sem sexo, sem nada. Embora folgado, me apertando a liberdade. Por vezes me achava imaginando o que pensariam eles se me encontrassem em tamanha incompatibilidade. Tinha vontade de abrir o armário, experimentar novas cores, encontrar o tamanho certo. Algumas vezes quase cheguei a fazê-lo, mas minha coragem cativa me amaciava. Eu continuava igual e eles nunca chegavam. Até um dia de indisposição.
Neste dia em questão, meus pais, o velho e a velha, se preparavam para alguma festa da paróquia. Eu fiquei na cama, enquanto encenava tonturas, espasmos, titubeações. Eles se voluntariaram a ficar comigo, mas eu teimei em que fossem. E eles foram.
Assim que o bairro todo saiu, sentei a soleira da porta, abraçada aos joelhos. Ao meu lado, a pequena mochila verde-musgo dividia a apreensão. Ali, em mim, vestidos não cabiam. Eu era corpo, era cor e cabelo amarrado. Pela primeira vez era mulher. Mulher como aquelas que se deixam arrastar pela estrada, que se entregam ao vento impetuoso. Que se perdem rápidas no fim da rua ao entardecer. Eu era coragem e decisão.
Aquela era uma das poucas vezes que os estrondos das motocicletas não tinham platéia a sua espera. Apenas eu. O sol começava a baixar. Amarrei os cadarços, coloquei a mochila nas costas e me levantei. Em minhas mãos suadas pelo nervosismo, estava meu passaporte para a liberdade. Ticket sem volta. As motocicletas se aproximavam cuspindo pelo chão.
(A/C Ferreira)
precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”[Amir Klink]
E levo esse sorriso, porque já chorei de mais,
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou
Nada sei, conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs.
È preciso amor pra puder pussar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir.
Penso que cumprir a vida, seja simplesmente
Compreender a marcha, ir tocando em frente,
Como um velho boiadeiro, levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu vou,
Estrada eu sou, conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maças,
È preciso amor pra puder pussar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir
Todo mundo ama um dia, todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora,
Cada um de nos compõe a sua historia, cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz, e ser feliz,
conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maças,
È preciso amor pra puder pussar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir
Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei de mais,
Cada um de nos compõe a sua historia, cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz, e ser feliz!
[Almir Sater]
